Educomunicadores: Célestin Freinet, por Mario Kaplún

Una pedagogia de la comunicación (Mario Kaplún)
Texto original em espanhol consultado em
EDUCOMUNICACIÓN: MÁS ALLÁ DEL 2.0, organizado por Roberto Aparici.
Tradução livre por Fábio Rogério Nepomuceno.Título original do artigo:
Un educador-comunicador de los años veinte
 

Um edu-comunicador dos anos vinte*

Na década de 20 do século XX, Célestin Freinet se encontra num dilema, está convencido da necessidade de mudar o sistema de ensino a que seus alunos e ele mesmo estavam submetidos. Sentia a necessidade urgente de buscar novas soluções, válidas para suas limitações físicas e eficientes para as crianças. Descobriu os ideólogos da “escola nova” (ou “ativa”) e ficou cheio de esperança. No entanto, depois percebeu que suas propostas só eram viáveis para os ricos, para os privilegiados; impossível de ser adaptada para a educação pública de massa.

Continuou pesquisando, até que num catálogo viu a oferta de uma impressora manual. Isso o fez vislumbrar uma saída: utilizar na classe um meio de comunicação.

Introduziu na aula um jornal escolar, entendido como eixo central, como motor do processo educativo. Assim a classe se transformou numa sala de redação, responsável pela composição e a impressão.

Aquele meio de comunicação de massa mudou toda a dinâmica do processo de ensino-aprendizagem. As crianças, incentivadas, pesquisavam informações para ampliar seus artigos; se exigiam que as informações fossem corretas, discutiam os artigos, buscavam clareza, precisão e rigor. Se interessaram por ler a imprensa convencional e analisar suas notícias.

Esta experiência chegou a outros professores que se interessaram por reproduzir o processo e pediram assessoria a Freinet.

Assim aconteceu algo de maior impacto: se estabeleceu um intercâmbio de jornais escolares, uma rede de escolas correspondentes.

A caixa de ressonância

Poucas vezes se há visto estudantes que aprenderam tanto, tão facilmente e com tanto interesse e entusiasmo, como foi o ensino-aprendizagem de Freinet.

A chave estava neste meio de comunicação. Aqueles educandos tinham uma caixa de ressonância: “escreviam para serem lidos”. E era essa rede de interlocutores, próximos ou distantes, o que os incentivava a criar, redigir, investigar, estudar, aprofundar seus conhecimentos. Semsentir isso como um esforço nem como obrigação, mas sim vivendo com alegria, com prazer, com entusiasmo. Aprendiam por meio da comunicação.

Comunicação e apropriação do conhecimento

Procuraremos identificar pontos de encontro entre a pedagogia de Freinet e os desafios atuais.

Criar um ecossistema educativo

O que impressiona no exemplo de Freinet e constitui uma de suas mais vigorosas “mensagens” para nós, é a forma como encara o conflito. Transformando sua situação em catalizadora de outra educação; não tentando remendar o sistema tradicional, mas transmutando a dificuldade em desafio e construindo um novo cenário pedagógico que potencializou as faculdades de seus educandos para a autoaprendizagem.

Maximizar os recursos para a autoaprendizagem

A freinetiana é claramente uma pedagogia de autoaprendizagem; mas não a partir de um esquema individualista – tal como é a educação a distância tradicional; mas sim inscrita em uma concepção substancialmente coletiva do processo educativo. Para aquelas crianças todo seu entorno ambiental e social se converteu em objeto e fonte de conhecimento.

Não se trata de uma educação sem professor; e sim deixar de ver este como único responsável pelo processo educativo e colocar suas contribuições dentro de um sistema mais amplo e mais dinâmico de interações nas quais ele pode ser cada vez menos necessário.

Gerar uma motivação

Para que o processo de autoaprendizagem seja desencadeado é necessário alimentar o sistema com estímulo e motivação.

Freinet conseguiu esse estímulo introduzindo na aula um meio de comunicação: o jornal escolar. Hoje, com os avanços tecnológicos, o meio poderia ser outro. O essencial não reside no tipo de recurso eleito, mas na função que este cumpre: a de abrir aos estudantes canais de comunicação através dos quais possam socializar os produtos de sua aprendizagem. Isto é: criar uma caixa de ressonância que transforme o educando em comunicador e o permita descobrir e celebrar, se comunicar, projetar socialmente sua própria palavra.

Valorizar a expressão dos estudantes

A introdução dos meios de comunicação no interior de um programa de autoeducação orientada põe à disposição dos estudantes um veículo para expressar-se, numa prática de auto expressão, afirmar-se, descobrir suas próprias potencialidades; em palavras de Freinet: “adquirir consciência de seu próprio valor”.

Conhecer é comunicar

O processo de ensino-aprendizagem tem, sem dúvida, um componente de conteúdos que são obrigatórios transmitir, ensinar; mas precisa também de descoberta pessoal, recreação, reinvenção. Freinet convida o estudante a escrever para que outros leiam, falar para que outros escutem. O domínio das competências comunicativas, a apropriação de seus signos, desenvolvendo sua capacidade de comunicar, afirmada assim como prioridade do processo pedagógico.

Educar-se é envolver-se e participar de uma rede de múltiplas interações comunicativas.

Potencializar o grupo como célula básica da aprendizagem

A comunicação educativa, inclusive a realizada a distância, precisa ser de dimensão coletiva. Freinet partiu de um primeiro agrupamento: a classe, seus alunos.

Na modalidade de ensino a distância, que tem crescido ultimamente, os alunos ficam solitários e ilhados, presos na carência de instâncias de participação e na extrema pobreza de fluxos de comunicação – uma situação pedagogicamente menos propícia para a apropriação e recriação do conhecimento.

Não se trata de apenas favorecer espaços coletivos, mas também de definir que papel será atribuído a estes grupos, que grau de autogestão lhes serão atribuídos e o quanto serão reconhecidos.

Uma educação coletiva promissora é aquela que aposta no grupo e na sua capacidade auto gestora; que adquire o princípio holístico segundo o qual o próprio grupo é a base da pedagogia de Freinet. Um grupo de aprendizagem é uma escola prática de cooperação e solidariedade.

O conhecimento é um produto social

Aquele jornal escolar foi gerando uma socialização em círculos cada vez mais amplos e distantes. No começo, só as crianças redatoras, logo levado a suas casas, depois lido pelos moradores da comunidade… finalmente seu círculo comunicacional se expandiu e entrou em contato com comunidades distantes. Portanto este processo nos impulsiona a sempre avançar.

O grupo é, sem dúvida, uma célula básica, o primeiro passo necessário para a construção de uma educação cooperativa e solidária, mas não é seu objetivo último. Num sistema grupal ou coletivo, cada uma de suas células, por dinâmica e autogerida que seja em si mesma, permanece ilhada, incomunicável.

É bom que um sistema educativo seja grupal, mas é muito melhor que seja intergrupal. Tão dinamizador quanto promover a formação de grupos ou coletivos é promover que estes grupos se intercomuniquem uns com os outros.

O papel dos meios de comunicação na educação num modelo dialógico

Freinet se não é o primeiro, ao menos é um dos primeiros a introduzir um meio de comunicação no ensino (também introduziu o toca-discos gramofone, o rádio e o projetor de cinema como recursos educativos), assim como também conceituou a educação como um processo de comunicação. Em sua proposta, o recurso – o jornal escolar – sendo o eixo central da aprendizagem, se tornou o que realmente era: um meio, isto é, um veículo de comunicação. Dentro das limitações técnicas de sua época, Freinet optou pela imprensa. Hoje temos outros recursos ao nosso alcance.

Emissores ativos contribuem para formar receptores críticos

Ao converter seus alunos em jornalistas e inclusive em impressores, eles conheceram por dentro a gestão de um meio de comunicação. Isto o despojou de seu prestígio mítico e o tornou um produto material, com cuja condições de produção se familiarizaram. Não é surpreendente, então, que aprenderam a ler a “outra” imprensa – a profissional – com sentido crítico: já sabiam como um título pode impactar e predispor um leitor, como a forma de apresentar uma informação produz um determinado efeito de opinião…

A partir desta experiência, os estudantes já não veem com o mesmo olhar. Os receptores se tornaram autônomos na medida eles mesmos exercem e praticam a função emissora.

Recapitulando

Podemos resumir em duas premissas básicas os eixos orientadores que emergem:

1. A apropriação do conhecimento por parte dos estudantes é ampliada quando são instituídos e potencializados como emissores. Seu processo de aprendizagem é favorecido e aumentado pela realização de produtos comunicáveis e efetivamente comunicados.

2. Educar-se é engajar-se num processo de múltiplas interações. Um sistema será tanto mais educativo quanto mais rica seja a trama de fluxos comunicacionais abertos e disponíveis para os estudantes.

Mario Kaplún

O vídeo abaixo repete algumas informações do slide acima do artigo, mas acrescenta outras e traz imagens preciosas:

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